Artista pernambucano que vive em Uberlândia vence categoria Novos Talentos do Cerrado Mapping Festival
Javé conquistou o júri com “Travessia”, obra que transforma seca, memória, resistência e renascimento do Cerrado em uma travessia audiovisual
Do cordel e da xilogravura à seca. Da terra ameaçada à força de uma raiz que encontra água e faz a mata renascer. Foi contando uma história de memória, resistência e regeneração que o artista visual e vídeo jockey, Gabriel Javé Ferreira Vieira, pernambucano que atualmente vive em Uberlândia, conquistou o prêmio de Novos Talentos da quinta edição do Cerrado Mapping Festival.
Javé venceu a categoria com “Travessia”, obra apresentada na mostra competitiva de videomapping realizada nos dias 21 e 22 de agosto, na Praça Clarimundo Carneiro, em Uberlândia. Projetado sobre o Palácio dos Leões, o trabalho utilizou a fachada histórica como parte de uma narrativa construída em luz, movimento e referências à cultura sertaneja.
A obra nasce, segundo o artista, do encontro entre direção e movimento, de onde surgem projeções que dialogam na tela “como corpos vivos de memórias”.
Um sertão inteiro para atravessar
“Travessia” se desenvolve em cinco episódios e trata a fachada ao mesmo tempo como página e testemunha da história que está sendo contada. A narrativa começa na feira, no cordel e na xilogravura. Do papel surge um sol vermelho e, com ele, a seca e um chão que demora a cicatrizar. Em seguida, chegam invasores que avançam sobre a vida existente naquele território até restar uma última árvore. É quando a história muda de direção. A raiz do Cerrado resiste. Atravessa o solo em busca de água e dá início a um processo de renascimento. A vegetação cresce novamente, ocupa o espaço e recupera uma terra capaz de gerar vida depois da destruição. No fim, tudo volta a ser cordel.
Mais do que construir uma sequência cronológica, Javé propõe uma travessia, em referência ao universo de Guimarães Rosa e à ideia de um sertão que também existe dentro de cada pessoa. Por isso, a obra termina onde começou: a natureza, assim como a memória, não segue necessariamente uma linha reta. “Quando soube do festival e conheci o tema “Ser-Tão”, senti que tinha encontrado uma oportunidade especial para trazer um pouco desse universo para o meu trabalho. Foi a chance de mostrar às pessoas uma pequena parte da riqueza e da identidade do sertão e, ao mesmo tempo, me desafiar a experimentar técnicas visuais que eu nunca havia utilizado antes. Foram muitos dias de pesquisa, testes, estudos e, principalmente, de revisitar memórias que estavam guardadas em mim”, diz Javé.
Ele conta ainda que ver a obra sendo apresentada no Palácio dos Leões, diante do público e ao lado de grandes artistas da área, foi uma grande vitória. “Eu teria ficado feliz somente por ter participado daquele momento. Mas a maior surpresa veio no final, quando ouvi que ‘Travessia’ havia sido escolhida como a obra vencedora da categoria Novos Talentos. Foi uma emoção enorme e uma confirmação de que todo o processo, desde as pesquisas até as experimentações, tinha valido a pena.”
Para Javé, o Sertão do Cariri faz parte de toda a sua história. É cenário de sua infância e adolescência, o lugar onde nasceu, cresceu e construiu muitas de suas memórias. “Moro em Uberlândia há cerca de quatro anos, mas faço questão de voltar pelo menos duas vezes por ano para reencontrar minha família, amigos e, de certa forma, também um pouco de mim mesmo”, conta.
Novos olhares para o “SER-TÃO”
A obra dialoga diretamente com o tema escolhido para a edição 2026 do Cerrado Mapping Festival, “SER-TÃO”, que convidou os artistas a desenvolverem diferentes interpretações sobre o universo mítico, literário e simbólico do sertão brasileiro e suas relações com o Cerrado.
Na mostra, arquitetura, tecnologia e criação audiovisual se encontraram para apresentar ao público diferentes leituras desse território. As obras foram projetadas sobre o Palácio dos Leões e avaliadas por um júri formado por profissionais brasileiros e internacionais ligados ao videomapping e à arte digital.
Para a organização do Cerrado Mapping Festival, a premiação na categoria Novos Talentos também representa um dos objetivos do projeto: abrir espaço para novas vozes e estimular a produção artística nessa linguagem. “Um dos momentos importantes do festival é trazer novos artistas para ocupar uma fachada como a do Palácio dos Leões e apresentar seu trabalho para centenas de pessoas. Gabriel Javé participou também do Workshop e do Visual Brasil Meeting que realizamos no MUNA, durante o Festival, que tem o objetivo de contribuir para formação de artistas locais. Formar e dar visibilidade a novos talentos é um dos legados que queremos construir com o Cerrado Mapping”, destaca Bernardo Brant.
Festival reuniu milhares de pessoas
A quinta edição do Cerrado Mapping Festival foi realizada de 20 a 22 de agosto e reuniu milhares de pessoas em Uberlândia. Além da mostra de videomapping na Praça Clarimundo Carneiro, o evento promoveu um circuito com sete instalações de luz no Parque do Granja Marileusa e uma programação formativa com participação de profissionais brasileiros e estrangeiros.
Pioneiro em videomapping em Minas Gerais, o festival nasceu em 2020, na Vila de Santa Bárbara, em Augusto de Lima, no Norte do estado. Em 2026, chegou à quinta edição e à segunda realizada em Uberlândia.
Realizado pela Oficina de Imagens e Darklight Studio, o Cerrado Mapping Festival contou com patrocínio do Grupo Algar, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, e apoio da Prefeitura de Uberlândia, Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Infoview, além de parceiros institucionais.

