O ATOR É UM SEMEADOR DE ENCONTROS COMO BABAIOFF

O ATOR É UM SEMEADOR DE ENCONTROS COMO BABAIOFF

“O Ator é um semeador de encontros”, Armando Babaioff dita o tom no espetáculo “Tom na fazenda” neste final de semana.

Mário Côrtes*

Após dois anos, Tom na fazenda está de volta em Uberlândia, as duas únicas apresentações ocorrerão no Teatro Municipal. Uma na sexta, hoje, dia 10 de abril, às 20h, e a última no sábado, dia 11 de abril, também às 20h. As apresentações integram a agenda de espetáculos do projeto Uberlândia na Rota das Culturas por Carlos Guimarães Coelho. Armando Babaioff, ator e idealizador do espetáculo, celebrará este ano a apresentação número 600 na Coreia do Sul, passando posteriormente, no segundo semestre, por Nova Iorque (EUA) e Londres (Inglaterra). 

A longevidade da obra é evidente em inúmeros veículos de notícias por todo o país e por países dos quatro cantos do mundo. O texto, escrito em 2011 por Marc Bouchard e traduzido por Armando, celebra a vontade de um ator de 34 anos, em seu quarto, de estrear para um público de 47 pessoas sem saber que chegaria um dia a apresentar para um público conjunto de 2800 pessoas. Sucesso em números, nestes 9 anos de trajetória, atingiu quase 300 mil espectadores por todo o mundo. Diante disso, o sonho passa a se tornar real e o ator é levado a celebrar a vida, em seus vários momentos, em cima de um palco. 

O artista da cena é um semeador de encontros, é ele quem proporciona o encontro dos jornalistas em uma sala de imprensa, o pipoqueiro ao espectador na porta do teatro, o técnico de luz ao maquinista do teatro para a montagem da luz e os espectadores com a obra. E é nesse encontro, onde o ator possibilita outros encontros, que mora a distância da vida do ator para com a própria. É estar longe da família, no dia do aniversário da mãe, e é estar embarcando num voo, rumo a Ribeirão Preto, e não poder estar presente no último suspiro do pai, que Babaioff viveu e vive intensamente quase uma década de trajetória, ganhando admiradores, conhecendo novos amigos, percebendo novas nuances do próprio trabalho em cena e perdendo momentos que a vida não pode trazer de volta, a exemplo do falecimento do pai em 2025. 

O fato é que ganhar ou perder não entra na conta quando se é artista, principalmente do teatro. Aumentar a régua do sucesso, o desejo da fama não é e nunca foi ponto central de Babaioff, seu trabalho continua e continuará como plantador de sementes do encontro, mesmo que custe caro às vezes. Armando afirma que, enquanto estiver fazendo teatro, aquele que não tem condições de comprar ingresso estará também na plateia. “Faço teatro para comer, estamos aqui hoje, por conta das leis de política pública em nosso país, a Lei Rouanet e também aos patrocinadores, sem eles não teríamos essa projeção, mas vale lembrar que fui eu, naquele quarto, quem deu o pontapé inicial”, afirma Babaioff.
Na peça, essa inquietação extra palco é também observada. O personagem Tom chega para o funeral de seu companheiro em uma propriedade rural e descobre que ninguém ali o conhecia. Um amor antigo está morto, mas e os laços não construídos, como perdurar? A busca por vestígios de um encontro nunca realizado representa um pouco a busca incessante de nossa sociedade por um significado, e por alguns, um lugar no mundo para ser visto, quando nos referimos à Comunidade LGBTQIAPN+, temática pungente da peça. A obra, segundo Babaioff, representa um clássico contemporâneo que nos atravessa de geração em geração, fundando a bênção-maldição do ator de ter de levar a chama, assim como no mito de Prometeu, dos temas emergentes neste século: o respeito à diferença, o lugar do homossexual no mundo contemporâneo e tudo que o preconceito tem nos causado.

Ao público interessado em uma obra envolvente, com uma direção e encenação muito sólida por Rodrigo Portella e atuação de Armando Babaioff, Denise Del Vecchio, Iano Salomão e Camila Nhary, Tom na Fazenda, com classificação de 18 anos, é um prato cheio para vivenciar um teatro visceral, com um texto afiadíssimo sobre o universo queer. Um encontro pra continuar semeando a presença e o teatro brasileiro de altíssimo nível e fazer jus a semeadura eterna do ator em cena.

*Mário Côrtes, ator e dramaturgo.


Serviço:

Tom na Fazenda é baseada na obra “Tom à la Farme”, do autor canadense Michel Marc Bouchard.

Em cena, o publicitário Tom (Armando Babaioff) vai à fazenda da família para o funeral de seu companheiro.  Ao chegar na casa, descobre que a sogra (Denise Del Vecchio) nunca tinha ouvido falar de sua existência e tampouco sabia que o próprio filho era gay e para piorar: descobre que ela está a espera de Helen (Camila Nhary), a “namorada” do seu filho morto. Nesse ambiente rural e austero, Tom é envolvido numa trama de mentiras criada pelo truculento irmão do falecido (Iano Salomão), estabelecendo com aquela família relações de complicada dependência. A fazenda, aos poucos, vira cenário de um jogo perigoso, onde quanto mais os personagens se aproximam, maior a sombra de suas contradições.

 

Duração:  

110 minutos

  

Classificação:  

18 anos

  

Gênero: 

Drama

  

Ficha técnica: 

Texto: Michel Marc Bouchard

Tradução: Armando Babaioff – Quadro Vivo

Direção: Rodrigo Portella

Elenco: Armando Babaioff, Denise Del Vecchio, Iano Salomão, Camila Nhary

Cenografia: Aurora dos Campos

Iluminação: Tomás Ribas

Operação de luz: Tiago d’Avila

Contrarregra: Thiago Katona

Figurino: Bruno Perlatto

Camareira: Lídia Silva

Direção Musical: Marcello H.

Secretaria Executiva: Dalila Tardelli

Direção de Produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela

Comunicação e Marketing: Victor Novaes

Idealização: Armando Babaioff

 

 

 

editoraolympia

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